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O quarto de Vinícius fica no meio do corredor, à esquerda. É lá que estão o violão, as partituras, a
coleção refinada de CDs: Beatles, Radiohead, R.E.M., Flaming Lips, Tom Waits, Jeff Buckley, Strokes,
Air, Beastie Boys, Billie Holliday, Cateano Veloso, Vitor Ramil, João Gilberto. As fileiras são
desordenadas e alguns discos cobrem os demais, mas nem preciso revirá-los para ver melhor. Já deu
para entender as referências dele. Ao lado da cama de solteiro, coberta por uma colcha do Grêmio,
estão um pôster do vocalista do Radiohead, Thom Yorke, o mais brilhante artista da música pop do
século 21, e outro do grupo escocês de pós-rock Mogwai, autografado. Na cabeceira da cama
repousam, sobre um travesseiro, o terço da primeira comunhão e um CD que estampa na capa a foto
de Vinícius – bonito e concentrado, com headphones e agasalho esportivo vermelho abotoado até se
formar uma gola alta. “Yoñlu” é o que está grafado na capa do disquinho digital. O estúdio casiero
onde as 23 faixas do CD foram gravadas, entre 2004 e 2006, fica no meio do mesmo corredor, à
direita. Abriga o aparelho de som do garoto, mais discos, uma guitarra, um teclado e o seu
computador, um PC onde os sons foram registrados com um aplicativo básico de áudio, o Cool Edit
Pro, e um microfone.
Os dois cômodos mais freqüentados por Vinícius Gageiro Marques, filho único da professora
universitária e psicanalista Ana Maria Gageiro, e segundo do professor universitário Luiz Marques
(Fernanda é do primeiro casamento), permanecem arrumados como se ele fosse chegar a qualquer
momento do tradicional Colégio Rosário, onde cursava o ensino médio, para navegar na internet e
fazer música, seu passatempo predileto. A rotina dele também englobava as visitas ao analista, ao
cinema, às aulas de teclado e guitarrra e, sazonalmente, a uma academia de ginástica. “Manter tudo
como era faz parte da elaboração da perda”, explica Luiz Marques, que me recebeu em uma tarde
incandescente do verão sulista, no final de dezembro de 2007, para falar do álbum póstumo de
Yoñlu, assinatura virtual (de significado ignorado) de Vinícius, que abreviou a própria vida na tarde
de 26 de julho de 2006, 36 dias antes de completar 17 anos, ali mesmo, no apartamento do bairro
São Geraldo, zona norte de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.
Naquele dia, o garoto permaneceu on-line até lacrar o banheiro, onde morreu por intoxicação de
monóxido de carbono. Seus últimos momentos foram acompanhados por internautas com quem ele
se comunicava em um fórum virtual de suicídio. Alguns inclusive deram conselhos de como agir para
executar o plano preconcebido – às 14h18, Yoñlu relatou que tinha duas grelhas queimando no
banheiro, postou uma foto e perguntou: “Alguém, por favor, pode dizer quando posso entrar no
banheiro e deitar?”; às 14h42, um internauta pergunta: “Como você está se virando? Espero que
você consiga. Talvez você vá voltar tossindo”; às 14h44, Yoñlu retorna ao computador e reclama do
calor: “O que eu devo vestir para tornar isso mais suportável? Pelo amor de Deus, alguém por favor
me ajude”; às 15h11, um internauta alerta que a emissão do monóxido de carbono pode afetar os
vizinhos; algumas horas depois, alguém escreve que o suicídio deve ter sido consumado, pois ele
não entrou mais em contato.
Conectada à rede na tarde da morte, em Toronto, a antropóloga canadense Lindsey, que conhecia
virtualmente Yoñlu, alertou agentes policiais de seu país. Eles acionaram a sede gaúcha da Polícia
Federal brasileira. Quando os soldados da Brigada Militar de Porto Alegre chegaram ao apartamento,
era tarde demais. O corpo de Vinícius foi encontrado por seu avô, Fernando Gageiro, que mora no
térreo do mesmo prédio de três andares, e por um policial. “Ele ficou tão abalado com a cena do
‘guri lindo e que tinha tudo’ que teve de se afastar do trabalho de campo e fazer análise”, conta Ana
Maria Gageiro. “Vinícius era fechado como uma ostra, mas dentro tinha muitas pérolas”, define Luiz
Marques, doutor em Ciências Políticas pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris, secretário estadual
da Cultura do Estado do Rio Grande do Sul entre 1999 e 2002. Estamos na sala de estar que tem
como cenário dezenas de quadros com fotografias tiradas por seu filho, um adolescente poliglota que
se alfabetizou em francês (morou com a família em Paris dos 3 aos 7 anos), falava e escrevia em
inglês fluente sem nunca ter freqüentado cursos específicos (aprendeu assistindo filmes na tevê e no
cinema) e chegou a estudar galês, que se propunha a ensinar pela internet – “Tinha um aluno, um
maluco”, brinca o pai.
Seguidor da lomografia, Vinícius se dedicava a retratar o cotidiano de forma imprevisível desde os
13 anos, usando as cultuadas câmeras russas Lomo, que adquiria pela internet com a ajuda da mãe,
com quem passava horas pesquisando pelo modelo a ser encomendado. “Ele era sério, até demais, e
costumava se aprofundar em tudo antes de tomar qualquer atitude”, lembra Ana Maria Gageiro, que
me recebeu alguns dias depois de eu entrevistar seu marido, na mesma sala de estar onde ainda
permanecia, em um cesto de revistas, uma publicação que estampava a manchete “Deus Existe?”. Foi
só depois de muita leitura, por exemplo, que o intelectualizado Vinícius (lia Kafka aos 12 anos) se
decidiu em adquirir seu gato pêlo curto inglês “importado” do Rio de Janeiro. “Albert o seguia pela
casa o tempo todo”, recorda a mãe, com o gosto doce da lembrança e os olhos que miram o infinito.
O bichano, que permaneceu escondido nas duas visitas que fiz ao seu lar, é tão sensível quanto era
seu dono. “Desde cedo, eu percebia que a antena sensível do Vinícius para o mundo também era a
fragilidade dele”, revela Ana Maria, com conhecimento de causa: é doutora em psicologia pela
Universidade Paris Diderot-Paris 7. Porque “a relação com o outro era um desafio quase
intransponível”, ele passou a fazer análise já aos 8 anos. A mãe era uma das poucas companheiras
da curta adolescências do garoto que, até os 14 anos, preferia sair com o pai para ir ao cinema, uma
grande paixão, e aos jogos do Grêmio.
Um levantamento elaborado pelo Ministério da Saúde aponta que o Rio Grande do Sul tem o maior
índice de suicídios do país: 16,6 casos para cada grupo de 100 mil pessoas. Porto Alegre é a quinta
capital brasileira da pesquisa. “Este dado coloca Vinícius numa estatística. O resto não é estatística,
ele era um iluminado, tinha uma sensibilidade acima da média”, afirma Luiz Marques, o homem que
se dedica a difundir a notável capacidade artística precocemente revelada pelo filho que, muito mais
do que os clichês fáceis e oportunistas do garoto-problema-da-internet, remetia ao “one dimensional
man” descrito nos anos 50 pelo sociólogo e filósofo alemão naturalizado norte-americando Herbert
Marcuse: “Um personagem da nova era marcado pelo auto-enclausuramento no domicílio, no
trabalho, no lazer, cercado de parafernálias tecnológicas que servem para realizar o sonho da
filosofia iluminista”.
Além de participar de grupos internacionais de fotografia, Vinícius desenhava muito bem (seus
traçoes e colagens remetem a Stanley Donwood, designer do Radiohead) e tinha uma aptidão
musical impressionante. Na teoria, demonstrava conhecimento e senso crítico em análises profundas
sobre a música pop, sempre escritas em inglês e disponibilizadas na internet. Com 13 anos, fez uma
compilação em CD, que enviou para amigos virtuais mundo afora, selecionando os artistas que
julgava mais importantes para a história evoluitva do rock: Beatles (“A banda”), Mutantes (“a mais
inovadora do Brasil”), David Bowie (“antena britânica”), Bob Dylan (“pioneiro”), Clash (“o grupo
punk definitivo”), R.E.M. (“baliza pós-punk que apresenta o guitar pop como alternativa ao rock”),
Smiths (“demarcaram o fim da new wave e o começo do guitar rock”), Jeff Buckley (“o mais
importante letrista americano”), Blur (“junto com o Oasis, o sólido parâmetro do brit pop”), Super
Furry Animals (“primeira banda pós-alternativa”) e Radiohead (“para fechar com chave de ouro o
ciclo iluminado”).
Na prática, Vinícius registrou centenas de canções movidas a teclado, guitarra, violão e efeitos no
quarto que transformou em estúdio. O disco póstumo, embora seja apenas um esboço do seu
potencial, revela conexão com o pós-rock, vocação para o experimentalismo eletrônico, noções de
rock industrial e capacidade de criar delicadas melodias melancólicas, algo entre Badly Drawn Boy,
Radiohead, Tortoise e Nick Drake.
Os artistas gringos, porém, não transitavam com exclusividade na órbita de influências do garoto
contaminado pela consciência universal propiciada pela internet. Nada colonizado, ele agregava ao
seu som a paixão pela bossa nova, a atenção às rupturas tropicalistas (considerava Gilberto Gil o
grande gênio do movimento) e a ingluência de músicos gaúchos como Vitor Ramil, seu predileto, e
Nico Nicolaiewsky. Foi outro músico local, Arthur de Faria, quem recomendou Yoñlu para Sandro
Bello, do selo goiano Allegro, que lançou o disco. “Fiquei imaginando como, em tão pouco tempo,
ele captou a magia da música popular de forma a desenvolver algo tão bacana”, questiona Bello.
“Adorei a maneira como ele usa os tempos, as melodias e as harmonias, e também as letras que
escrevia”, analisa Arthur de Faria, que também é jornalista.
Entre o lirismo poético e um salutar nonsense, as letras, escritas em inglês, ajudam a desvendar
quem era Vinícius. Assuntos como depressão, indaqueação e suicídio estão espalhados entre as
faixas selecionadas para o disco. “Katie Don’t Be Depressed”, uma pérola musical com guitarras
quentes e letra polar, é sombria: “Katie não fique deprimida / é sério, quero dizer, que porra é essa?
/ um pensamento se lança pela sua cabeça / e vê você se contorcer e berrar / apesar de uma mão o
segurar / apesar de ser jogado no chão”; “Humiliation”, voz, violão e incapacidade de declarar uma
paixão, é pungente: “Por que isso sempre acaba em humilhação para mim? (…) Eu vou dizer porque
/ Eu vou morrer”; a balada triste de palavras cuidadosamente mastigadas “Suicide Song”, escrita um
mês antes da data fatal, é assustadora: “Agora ela se foi como todo mundo que conheci / agora o
meu suicídio está iluminado pelo pôr-do-sol / se quer saber a minha opinião, é bem triste / acho que
não vou estar / presente para ver o seu rosto”.
Ana Maria Gageiro, que estudou violão e tem boas noções musicais, sempre foi uma grande
incentivadora da vocação do filho, não por acaso batizado em homenagem a um dos mais
importantes letristas da bossa nova. “Casualmente, o último filme que ele assistiu foi o documentário
sobre o Vinícius de Moraes”, lembra a mãe, que apresentou ao garoto bandas como Queen e passou
a gostar de artistas como R.E.M. e Los Hermanos por causa dele. “De vez em quando, sentávamos
para tocar e cantar, e ele me pedia opinião sobre algumas das músicas que estava compondo.”
Apesar de ter sido uma efetiva interlocutora musical, Ana confessou, antes mesmo de eu ligar o
gravador, que não consegue ouvir o disco de Yoñlu – mais no final da entrevista admitiu que “aquilo
ali pra mim é um inferno, né?”, referindo-se ao quarto do garoto, que o marido preferiu manter
arrumado, como nos velhos tempos de convivência a três.
É das brincadeiras cotidianas de Vinícius, o parceiro de programas adolescentes, que ela mais se
ressente. “Sempre tive dificuldade de entrar nessa empolgação do CD”, afirma Ana, referindo-se ao
empenho de Luiz Marques em perpetuar a arte de Yoñlu. “Passei a encarar a morte de uma maneira
completamente diferente e mergulhei no trabalho para tentar seguir adiante. Ou tu engata na vida, e
vive mesmo com uma dor destas, mergulha em alguma coisa [longo silêncio]. Tudo termina em
nada. Aprendi que tem que pegar leve. Porque, olha [suspiro profundo], de uma manhã para uma
tarde, tudo muda. A vida escorre pelo dedo. Pega leve.”
“É diferente a maneira como um homem se relaciona com o luto em relação à mulher”, teoriza Luiz
Marques. “Para o pai, acabou a transcendência”, declara, enquanto prepara um revigorante café para
dar seqüência à entrevista, logo depois d ter me levado para conhecer o quarto e o estúdio do filho -
mais tarde, ele me enviou um e-mail confessando que sentiu demais o “peso de revirar os CDs e
mever nos livros de Vinícius”.
Mesmo destruído depois da perda, Luiz percebeu que tinha uma possibilidade de satisfazer sua
necessidade masculina da transcendência fazendo algo que, acredita, deixaria seu filho, finalmente,
feliz: dedicou-se a divulgar a obra musical dele. A tarefa foi impulsionada por uma iniciativa do
próprio Vinícius, que se revelou depois de sua morte.
Até o fatídico 26 de julho de 2006, Luiz não conhecia nenhuma música, muito menos sabia da rede
de interlocução do filho. Antes de se trancar no banheiro para abandonar a vida, Vinícius seguiu uma
orientação do fórum virtual de suicídio que freqüentava há cerca de dois meses e redigiu uma carta
de despedidda – para não incriminar os familiares. Escrita no computador, impressa e colocada junto
do aviso “Cuidado – Monóxido de Carbono” afixado na porta, a carta explicava que aquilo não era
uma contingência ou algo precipitado, pedia que sua vontade fosse respeitada porque a vida estava
insuportável, indicava o endereço de seu blog, agradecia o apoio dos pais e lhes recomendava ouvir
música quando ficassem tristes, exatamente como ele fazia. Embora não tenha sugerido que
ouvissem os sons que ele mesmo compôs, deixou um CD com algumas de suas canções.
Ao mesmo tempo e no mesmo lugar onde buscava respostas para o suicídio, o computador de
Vinícius (que estava sendo periciado pela Polícia Federal e pela Delegacia da Criança e do
Adolescente), seu pai descobriu algumas das preciosidades sonoras que ele tinha armazenado – na
grande maioria, canções próprias. Entre as poucas releituras, estão duas faixas que, por
desconhecimento de Luiz Marques, não foram creditadas aos seus autores na primeira leva do CD:
“Ricky”, de John Frusciante, e “Little Kids”, do Kings of Convenience. Muitas faixas vinham
acompanhadas por comentário entusiasmados de internautas do mundo todo. O brasileiro de Gay
Harbour (era como Yoñlu se referia a Porto Alegre), praticamente sem amigos reais, era um artista
virtual definido como genial por ingleses, escoceses, belgas, canadenses, norte-americanos. A
descoberta motivou Luiz Marques a procurar alguns amigos músicos, como Cláudio Levitan, que
apresentou os sons para Arthur de Faria, que procurou Sandro Bello, que lançou Yoñlu.
Tecnicamente, o formato final do produto foi obtido com a colaboração do músico e produtor gaúcho
Pedrinho Figueiredo, que trabalhou, entre outros, em discos do renomado gaiteiro Borghettinho.
Pedrinho colaborou na escolha do repertório, além de mixar algumas faixas, restaurar o áudio de
outras e, só quando necessário, remixar algumas poucas canções. “Foi admirável testemunhar que
em um período de pouco mais de dois anos ele tenha evoluído tanto”, analisa Pedrinho. “Ele
começou a gravar com as ferramentas mais básicas de um PC e chegou a músicas de 36 canais, uma
mixagem legal e propostas conceituais de arranjo e de mixagem. Eu não conheci o Vinícius em vida,
mas posso dizer que hoje o conheço como artista.”
“Eu ‘conheci’ Vinícius em um fórum de videogames, por volta de 2001″, conta por e-mail o DJ
escocês de breakcore/nintendocore Sabrepulse, de 22 anos e um excelente currículo de
apresentações pelo REino Unido. “Logo começamos a falar no MSN sobre música, videogames, arte e
ficamos bons amigos. Aí ele começou a me enviar arquivos de mp3 com suas gravações. Ele era
muito talentoso. Na verdade, comecei a escrever música por causa dele, que me enviou uma faixa
chamada ‘Deskjet’, gravada com sons de impressoras, e eu remixei usando um teclado e algumas
batidas. Depois ele fez algumas cópias desse single e enviou uma para minha casa. ‘Purple Haze’,
uma de minhas primeiras músicas, tem a voz dele na introdução. Em 2006, dediquei um de meus
discos em sua memória, Chipbreak Wars, que tem um desenho do Vinícius na capa (e uma faixa
chamda “XXX Is Dead”). Ainda penso muito nele.”
Sam Miller, a.k.a. FargalEX, 21 anos, estudante de animação digital na Universidade de
Hertfordshire, Inglaterra, conheceu Yoñlu em janeiro de 2004. “Embora nunca o tenha visto
pessoalmente, o considero como um de meus amigos mais próximos”, revelou por e-mail – depois de
relutar em conceder entrevista, porque já foi procurado por muitas pessoas para falar a respeito do
suicídio. Para um dos internautas, com quem mantive contato, e que lhe contou sobre o lançamento
do CD, chegou a se mostrar desgostoso e dizer: “Ele se foi, deixem-no em paz”. FargalEX tem
armazenadas 72 faixas gravadas pelo adolescente gaúcho, “nem todas prontas, algumas
experimentais, mas sempre muito fáceis de serem visualizadas”. Autor da letra nonsense de
“Guurdensky Slipslogruya Q”, lançada com o título de “Goodbye (a Story)”, voz da introdução da
faixa I de Yoñlu, o indie rock “Mecha Donald Duck”, fã de músicas “Not Another King Kong” (um
quebra-cabeça de estilos lançado como “Tiger” no CD) e da bossa “Sketch”, FargalEX, excelente
designer, também conhecia os desenhos de Yoñlu: “Ele me enviou alguns de aniversário. Tinha uma
arte muito estranha e interessante, quase naïf. Além disso, suas críticas e apoio aos meus trabalhos
artísticos sempre foram muito valiosos. Yoñlu foi uma grande inspiração.”
As evidências da amizade entre FargalEX e Yoñlu estão em um dos fóruns musicais que
freqüentavam, o rllmukforum. Em 26 de junho de 2006, depois de enviar músicas para serem
apreciadas pelos demais internautas e ser questionado sobre sua idade por alguém surpreso com a
qualidade do trabalho, o brasileiro respondeu que tinha 17 anos. “Espera, o quê? Subitamente você
ficou mais velho? Você não tem 17 anos até setembro”, provocou FargalEX – Vinícius nasceu em 1°
de setembro de 1989.
Foi nesse mesmo fórum, pelo qual naveguei municiado pela senha fornecida por Luiz Marques, que o
pai de Yoñlu começou a descobrir sua boa reputação. Dois dias depois do suicídio, FragalEX
disponibilizou 25 faixas do amigo em mp3: suzakuseven agradeceu e afirmou que “Waterfall” é
simplesmente maravilhos; thebigboss escreveu que “Finalmente” é fantástica; Bastion Booger
afirmou que a voz remetia a Thom Yorke das coisas mais novas e perguntou se Yoñlu era seu fã; Mk
afirmou que o garoto deveria ter um álbum póstumo; YaWdiB contou que não conseguia parar de
cantar “Estrela” nos últimos dois dias – ele se referia a “Estrela Estrela”, música de Vitor Ramil dos
versos “como ser assim tão só e nunca sofrar?”, que Yoñlu regravou e fez grande sucesso entre os
fãs. Em 14 de agosto, DiscoStu escreveu que era difícil imaginar que uma pessoa tão jovem e
talentosa pudesse ter posto fim a tudo, e elogiou “Estrela” e “Waterfall”; Bojangle descobriu Yoñlu
listado na plataforma social de música Last.fm, mas, ao constatar que não favia um perfil dele,
propôs que eles mesmo fizessem um, juntos; stan contou que colocou a maravilhosa “Waterfall” em
seu iTunes.
Passado quase um ano, em 4 de maio de 2007, Hoop version confessou que rotineiramente acordava
com a segunda parte de “Albatross” em sua cabeça; em 3 de junho, Jim Miles revelou que nunca
tinha ouvido nenhuma música de Yoñlu até então, e elogiou “Waterfall”, especialmente quando as
batidas começam; em 17de junho, toonfool contou que baixara “Waterfall” havia algumas semanas e
a considerava uma grande música – “É uma pena que ele tenha partido”; em 19 de agosto, Jab
afirmou que Yoñlu tinha muito talento e desejou que ele descansasse em paz. A recorrente
“Waterfall” é uma balada instrumental cortante levada por violão e voz, que cresce na segunda parte
quando acrescida de efeitos e batidas eletrônicas sutis. Em fevereiro deste ano, o selo Luaka Bop fez
coro aos internautas e concedeu nova dimensão ao trabalho. Agentes do selo norte-americano, que
descobriram o som do garoto pela internet, licenciaram os direios internacionais do CD lançado pela
Allegro. No exterior, o álbum ganhará nova direção de arte e terá 14 faixas, entre elas a versão de
“Estrela, estrela” e o samba “Olhe por nós”.
O guru da psicodelia Timothy Leary declarou que o computador era o novo LSD, referindo-se a
possibilidades tão infinitas quanto a perpetuação da persona virtual, algo semelhante a uma viagem
lisérgica se levado em conta o despreeendimento do tempo/espaço. O corpo de Vinícius foi enterrado
no cemitério ecumênico João XXIII, em Porto Alegre. Yoñlu (ou Yonnerz, seu outro codinome), o guri
de Gay Harbour que habita a rede mundial de computadores continua disponível para a geração
google – é plausível imaginar que fosse bem consciente disso. Ele ainda está cadastrado nas páginas
do site IVOX – Guia de Opiniões, onde, com 12 anos, escreveu que “a última coisa que precisarão
ouvir sobre mim é simples: sou preguiçoso”; listou Radiohead, Björk, Neutral Milk Hotel, Ed
Hardcourt e Kings of Convenience como bandas de interesse; afirmou ser “grande admirador do
trabalho de David Lynch”; fez uma abalizada crítica para o filme Lilo & Stitch: “A campanha
publicitária da Disney para sua nova comédia sci-fi animada está desesperadamente tentando nos
convencer de que o filme é uma exceção à tradicional fórmula da Disney (…) Au contraire, Disney,
au contraire (…), no geral ele se encaixa perfeitamente nela, com seus protagonistas órfãos,
personagens auxiliares cômicos e uma mensagem sobre a importância da família”.
No site Rate Your Music, onde pode ser visto de chapéu e cachimbo, Yoñlu conta que estava ouvindo
Los Hermanos, Beatles, John Frusciante, Caetano e Clash e atribui notas altas para quatro discos do
Lambchop, poucos dias antes de morrer. No site da Amazon, é dele uma das resenhas do CD João
Voz e Violão, em inglês impecável e de frases como “a bossa nova é de longe o mais inspirado
gênero musical brasileiro”; “para mim, é disso realmente que música se trata: voz, violão e
silêncio”; Em seu blog, Lone Cannoneer (tirado do ar por um hacker em outubro de 2007, por
decisão de Luiz Marques e em nome da preservação de familiares que apareciam fotos), Yoñlu deixou
mais amostras de sua criatividade, capacidade crítica e um bom humor que, na medida em que
crescia, se afastava do apartamento onde morava com os pais. Suas auto-entrevistas em forma de
notícia são primorosas.
GAY HARBOUR, BRAZIL – O aprendiz de violão de 15 anos Yoñlu anunciou hoje que, apesar de
praticar cotidianamente, está tocando cada vez pior. O jovem pupilo está estudando música há um
ano numa escola a duas quadras de sua casa. “Bem, eu pratico mais do que uma hora por dia, mas
não consigo melhorar”. (…) Em um momento da entrevista, Yoñlu pegou seu violão e começou a
tocar “Don’t Think Twice, It’s Alright”, de Bob Dylan. Apesar de seu modo de cantar ser, de fato,
bastante fiel ao de Dylan na versão original de Freewheelin’[1963], foi impossível não perceber que
ele está tocando muito mal.
GAY HARBOUR, BRAZIL – Inspirado na recente decisão de Jason Kottke de parar de trabalhar para se
dedicar ao blogging, o autor do bem-sucedido blog Lone Cannoneer, Yoñlu, está pensando em fazer
o mesmo. “Bloguear o tempo todo tem sido um sonho que me acompanha há tempos”, confessou o
jovem brasileiro. (…) ele também estava negociando com o Blogger.com por mais banda, desde que
o grande número de acessos que tem recebido diariamente começou a causar quedas no servidor nas
horas de pico. (…) “Milhares de pessoas param diariamente para ler minhas novas resenhas sobre
música no Lone Cannoneer, dividir suas opiniões ou simplesmente checar as novas animações. Eu
não posso tirar isso delas.”
Conectados à existência virtual, jovens como Marcelo Amorim Menegali, paulista de Piracicaba, 19
anos, se tornaram verdadeiros especialistas na vida de Yoñlu. O estudante de Engenharia de
Computação leu a notícia da morte pela imprensa e, um ano depois, começou a pesquisar a história
virtual do garoto que jamais conheceu. Em um dos diversos sites e blogs pelos quais navegou,
encontrou Hellraiser, um amigo de Yoñlu que se suicidou em 15 de agosto de 2007. “Lendo posts de
um site, cliquei, por curiosidade, no perfil de uma menina que tinha feito um comentário
interessante”, contou Marcelo, por e-mail [no final de todos os bate-papos virtuais que me
descreveu, ele colou os textos]. “No perfil da garota havia um verso da letra de ‘Suicide Song’ ["Back
into your arms because I just can't be... anything outside of them"], do Yoñlu. Assutado pela
coincidência, mandei um e-mail para ela e passamos a conversar no MSN. Ela se chama Coraline,
mora em Paris, era namorada do Hellraiser, cujo nome verdadeiro é Romain, e me contou que ele era
muito amigo do Yoñlu. Coraline conheceu o namorado em um fórum de suporte à depressão, ele
havia dito a ela que iria se suicidar. Provavelmente, Yoñlu e Hellraiser sabiam dos planos de suicídio
um do outro. É possível até que tenham discutido os métodos.”
Marcelo também descobriu Flávia Carpes, ex-colega de Vinícius no Colégio Rosário e uma das 37
integrantes da comunidade “Pipoca eh o cara!!!!”, do Orkut. “Flávia Carpes me contou um pouco
sobre ele e disse que estavam na mesma classe, mas que não eram muito próximos”, lembra
Marcelo. “Quando citei as músicas, ela se mostrou surpresa com uma em especial. Depois ela ligou
para uma colega para contar sobre esta música e a meu respeito. Foi assim que eu conheci
(virtualmente) a Luana.”
“A coisa que eu mais gosto é de falar do Vinícius”, diz Luana Groch, que encontrei (pessoalmente)
em um sábado pela manhã em um típico ponto-de-encontro porto-alegrense – um café, em pleno
verão – para lembrar do mais tenebroso inverno de sua curta existência. Foi para ela que Vinícius
escreveu “Mecânica Celeste Aplicada”, nome definitivo para a música inicialmente batizada como
“Luana”. Ela mudou de Erechim para Porto Alegre em 2006, com a intenção de cursar o terceiro ano
e se preparar melhor para o vestibular. “Entrei na turma 303 e todo o pessoal foi muito receptivo,
mas logo o Vinícius me chamou a atenção, sempre contando suas piadinhas”, enfatiza a garota que
contrasta o ar melancólico com a disposição para discorrer sobre os bons momentos de um passado
recente. “Na sala de aula, ele era muito extrovertido, de um humor inteligente, e isso me atrai
bastante nas pessoas. Já no primeiro dia de aula, fui falar com ele. Depois, no Orkut, ele veio
perguntar: ‘Por que tu veio falar comigo?’, como se tudo aquilo que ele fazia não recebesse a
atenção que merecia. Mas não era verdade, todo mundo amava ele no colégio! Ele não tinha amigos
assim, de viver junto, ir às festas, viagens, mas todo mundo amava ele”.
Em seguida, Luana aprofunda a análise e começa a dar pistas. “Na verdae, ninguém conhecia o
Vinícius, todo mundo conhecia o Pipoca. Era o aluno mais popular da sala de aula e o mais
inteligente também. Ele não estudava, entregava as provas em dez minutos e só tirava 10, vivia
tirando onda, até com os professores. Uma vez, ele resolveu entrar em um concurso de top model
que fizeram no colégio, só para avacalhar!”, diverte-se a colega que sentava longe de Pipoca e não
conversava muito com ele na escola, mas gastava muitos pulsos telefônicos com Vinícius, três vezes
ao dia. “Sabe aquela pessoa extremamente agradável de conversar?”, dispara Luana. “Ele era
sensível, parece que a gente se conhecia há muito tempo”.
A afinação da dupla se estendia até ao guarda-roupa: “O Vinícius tinha um casaco igual ao meu, da
Puma, preto, e a gente sempre se vestia igual. Aí, um dia, eu resolvi ir de branco na aula, eu nunca
usava branco! No outro dia, claro que ele foi de branco também, a gente se olhava e ria muito, foi
muito engraçado!”, narra Luana, como se estivesse descrevendo o enredo de uma comédia romântica
que assistiu em um cinema de calçada.
Confidente, conselheiro, companheiro, Vinícius mostrava algumas das músicas que eestava
compondo para a melhor amiga. “Eu achava o máximo quando ele me pedia opinião. Uma vez, ele
gravou uma música e estava com vergonha de apresentar, aí a gente cantou junto. Todo mundo
gostou, até o professor. E ele ficou trifeliz”, arremata orgulhosa a guria, arrastando seu sotaque
gaúcho. “Depois ele me falou que estava fazendo uma música para mim, ficou um tempão
produzindo”. O grau de amizade e confiança era tamanho que “quando ele estava achando muito
chato ir no analista, me pedia para ligar no meio da consulta, ou mandar mensagens de texto, para
poder inventar uma desculpa e sair”, revela a garota. “Um dia ele me contou que começou a falar
muito de mim e o analista chegou a pensar que eu fosse imaginária, porque meu nome é a soma das
primeiras sílabas dos nomes dos pais dele”.
Protagonistas de uma love story adolescente, sem nenhuma pressa ou necessidade de entrar no
mundo adulto e transformar a amizade em namoro (por mais adultos que fossem), Vinícius e Luana
começaram a ir juntos ao cinema e até faziam planos futuros. “Para o verão deste ano, tínhamos
programado uma viagem para a França”, recorda a menina enquanto mordisca os lábios, mexe e
remexe nos cabelos.
Subitamente, ela desmonta a atmosfera etérea que exala e baixa o tom de voz. “Com o passar do
tempo, fui vendo que o comportamento dele na sala de aula era fachada, ele não queria ser daquele
jeito. Vinícius dizia que não conseguia passar o que sentia, a não ser quando estava cantando e
escrevendo. Ele falava muito sobre depressão, às vezes tinha que ir embora no meio da aula porque
não agüentava a pressão. No começo, ainda tinha forças, falava que queria se tratar, e eu ajudava,
dizia que ele ia conseguir. Mas, às vezes, ele dizia: ‘Hoje eu quase cometi uma loucura’. O Vinícius
era genial, mas achava que qualquer pessoa era melhor do que ele. Era bonito, mas se achava feio,
sempre falava isso. Se achava insuportável!” – ao estudar a depressão que levou à morte do filho,
Ana Maria Gageiro cita como provável causa a fobia dismórfica: eventualmente, Vinícius tinha a
impressão de que seu corpo iria se dissolver; “Ás vezes ele me dizia que achava que seu corpo
estava aos pedaços”, conta sua mãe.
Vinícius nunca deixou Luana ir até a sua casa nem deu explicações plausíveis para essa conduta. Mas
as inúmeras revelações contidas em seu blog e em fóruns da internet explicam por que ele jamais
revelou, nem para a melhor amiga, da existência desses. “Eu achava que ele não me escondia nada,
fiquei muito chateada quando soube do blog e dos fóruns”.
Na tarde de 23 de maio de 2006, no rllmukforum, Yoñlu agradeceu os cumprimentos recebidos por
diversas de suas músicas e completou: “Hoje eu voltei para casa pensando em suicídio, mas depois
de ler todas estas palavras gentis resolvi adiar”. à noite, ao comentar a canção “I Know What It’s
Like”, que anexou para ser ouvida, contou que “é [uma música] muito popular entre os colegas,
incluindo minha ex-futura-namorada”; sobre “Untitled”, revelou que é um dos tantos sons que fez
para a garota que ama; de “Suicide Song”, contou que foi “escrita e gravada rapidamente durante
um momento depressivo” e destacou “como é bacana ouvir a voz de um suicida”.
Em um relato posterior a uma ida ao cinema com Luana, Yoñlu descreveu seu próprio
comportamento como péssimo, contou que sentia estar se afastando de mais uma pessoa que amava
e pediu que rapidamente alguém dissesse algo gentil sobre suas músicas, antes que decidisse se
matar. No dia 4 de junho, ele postou no fórum a música que fez para a amiga (depois de mostrar
para sua mãe, sem dizer para quem era). Recebeu diversos elogios, como de costume. Dia 8, revelou
que ela gostou da música, e enfatizou que não fez a canção para conquistá-la, mas para amenizar a
má impressão que, segundo seu julgamento, a garota teria dele – àquela altura, ele já tinha
declarado em seu blog que lhe causara muita surpresa o fato de ter se apaixonado por alguém, e
estava entrando numa fase depressiva que culminou com textos nos quais justificava o suicídio, que
podem ser sintetizados nas frases “estou perdendo minha melhor amiga para meus próprios
demônios” e “eu simplesmente não consigo falar com as pessoas, ou melhor, consigo, mas não sem
corromper minha identidade e me tornar alguém que eu odeio”.
No final de julho de 2006, Ana Maria Gageiro encontrou a letra de “Suicide Song” sobre a cama de
seu filho. “Me apavorei, e vi que ele não estava bem”, recorda a professora e psicanalista. “Chamei
ele para conversar e ele disse ‘que era só uma música’. Eu disse: ‘Não é só uma música, é uma
música que fala de suicídio. Eu vejo que tu não tá bem’. Mas ele estava sempre muito decidido, as
coisas batiam e voltavam, ele estava se isolando cada vez mais.”
No mesmo período, Luana relata que Vinícius “começou a quebrar tudo que a gente tinha, não queria
mais falar comigo, se isolou muito na sala (ia de headphones para as aulas), parou de fazer
piadinhas”. Alertado pelo analista, Mário Corso, de que seu paciente estava falando em se matar,
Luiz Marques abriu a barra de acessos do computador do filho e descobriu que ele freqüentava um
grupo virtual de suicídio – chegou a pegar um diálogo do grupo no qual Yoñlu sugeria para uma
norte-americana com uma espingarda apontada para a cabeça que desistisse e fosse procurar um
analista. “O Luiz improimiu os diálogos e sentamos os três para conversar, aqui mesmo, nesta sala”,
revela Ana Maria. “A gente dizia que agora não era só uma música, havia conversas, mas ele
argumentava que, se aquela era para ser uma solução, teria que ser e pronto. Ele foi muito
categórico naquele dia”. A partir da conversa, os pais não o deixaram só um minuto sequer. “Mas aí
ele começou a simular uma melhora, levva até o violão para a escola. Até que, já nas férias de julho,
ele inventou que faria um churrasco para alguns colegas do colégio que não tinham ido viajar” – com
a desculpa de que nunca recebia amigos em casa e em nome da privacidade, pediu aos pais,
professores em férias, que os deixassem a sós.
A reunião de colegas para um churrasco na cobertura, dia 26 de julho de 2006, soava tão salutar
quanto o aniversário de 12 anos de Vinícius, que fez do Kiss, então sua banda predileta, o motivo da
festa – ele e três vizinhos passaram o dia inteiro maquiados com produtos de um kit adquirido pela
internet; o aniversiariante encarnou Paul Stanley. “No dia da morte, ele simulou tudo”, recorda Ana
Maria. “Foi comigo comprar comida no supermercado, me fez arrumar a mesa antes de eu sair, dizia
que tinha dúvida de quantas pessoas iriam. Não vi tristeza, depressão, pavor. Lembro dele me
olhando em êxtase, em paz. Eu tinha falado para ele que seria desesperador pensar em perdê-lo.
Mas, para o Vinícius, estar vivo ou morto era um detalhe. Ele não usou nenhuma droga, não bebeu
nada – dizia que se bebesse apenas acrescentaria mais um problema aos muitos que já tinha. Foi a
convicção que deixou ele tão calmo.”
No último post de seu blog, Yoñlu publicou uma foto em que está de costas entreolhando para a
câmera, parecendo assustado, aparentemente numa cela. Um clique no alt-text revela a frase “É
assim que eu quero ser lembrado”. “A foto é de uma festa de São João no Colégio Maria Goretti,
onde ele fez o ensino fundamental”, revela Luiz Marques. “Ele parece estar numa prisão, e não à toa
escreveu uma música chamada ‘Prison’, que não entrou no disco. A sociabilidade que a escola impõe,
para ele, sempre foi um pesadelo” – “A minha música predileta sempre foi ‘Prison’, e, embora eu não
soubesse que Yoñlu era depressivo, acho que dizia muito a respeito de como ele se sentia”, me disse
Sabrepulse, tão longe e tão perto do amigo virtual.
“Eu falei com ele naquela manhã, por MSN”, conta Luana, que estava de férias em Erechim, com a
família, na semana em que Vinícius tirou a própria vida. Ela escreveu: “Não falta muito para a gente
se ver. Estou com saudade”. Ele respondeu: “Também estou”.
Um ano e meio, dois capuccinos e muitas revelações depois, era eu que estava sentado numa mesa
de café diante da garota que “tem o dom de deslocar assim / a lua de Netuno no ar”, como Yoñlu a
descreveu em “Mecânica Celeste Aplicada”, sua única canção com letra em português, faixa 20 do CD
cujos eventuais lucros serão investidos em um site dedicado à brilhante produção artística do garoto
que produziu muito para quem viveu tão pouco, mas ainda assim fez muito pouco para quem
demonstrou tanto talento. Yoñlu é um disco que deveria ser apenas um cartão-de-visitas, mas se
transformou em testamento, é a celebração de uma vida com vocação para banquete que ficou no
aperitivo, é uma amostra de som e poesia dos beijos que Yoñlu não deu, dos sonhos que não
realizou, das angústias que não superou, de sua paixão pela arte e especialmente pela música, como
deixou registrado na carta derradeira escrita para os pais, afixada na porta do banheiro, em parte
reproduzida no encarte do álbum póstumo: “Eu acredito que a cadência e a harmonia certas no
momento certo podem despertar qualquer sentimento, inclusive o de felicidade nos momentos mais
sombrios”.
Matéria publicada na revista Rolling Stone n°18 por Marcelo Ferla- Março de 2008.
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